Crise

Por causa dos ilusionistas é que hoje em dia muita gente acredita que poesia é truque...

Mario Quintana - Sapato Florido, 1948.


quarta-feira, 27 de março de 2013

SOBRE A POESIA*






Creio ser algo maior
– além de mera e fugaz
"matéria de sonho".
Algo quase tão
– insuportavelmente belo:

Quando em excelência
melhor cultivado;

Quando irrompe altivo
após chuva sobre o arado;

Quando não abriga ou tolera
riso, rima ou vereda menor!

Algo, sim – que nos alimenta
e salva da feroz vilania
do existir absurdo;

Da cotidiana demência.
Da cruel verdade e falácia:

Ambas – não privilégio
de tristes tempos nossos.

Algo que quase Tudo pode
abarcar – e que nada quer
ou pretende explicar:

Mas que, ainda assim,
sempre lemos levados por
curioso prazer – até o fim!


*Jairo De Britto,
 em “Dunas de Marfim”

domingo, 17 de março de 2013

ABOUT WORDS*




 
 
Every word
– even those
sometimes hidden
by hypocrisy

– has its place,
function and time.

None should be left out, when
whispered by your heart.

Every word
deserves to be spoken
or written,
whenever Truth
is to be told.

Fearless must we be
once standing before them:

Afertall, no one knows when
they’ll be the weapon needed
beyond Reason – on the front line!

However, remember to be truthful.

Being truthful, we’ll know
each one horror, desire and time
to be what they really are:

Either a hoax letter leaf
or a blessed awesome star!

*Jairo De Britto, in “English Poems”

sexta-feira, 1 de março de 2013

LEITURA ONÍRICA*


 
I
Sim, escrito estava
em telas alvas de silício;
grávidas de Sorte e Silêncio.

II
Sim, escrito estava
em frases formais, diversas
daquela à soleira da porta.

III
Sim, escrito estava,
mal ou bem, tudo sobre ele
– seus atos mais solenes e caros:

À flor da pele, toda a imensa
fome de Saber e Alegria – que,
com um sorriso, sua Dor cobria.

IV
Até então, eu supunha fosse
um Testamento;
uma Carta de Amor, um Alento.

V
Não! Descrito estava tudo lá.
Em única folha: lâmina em brasa
– bárbara, suficiente, definitiva:

Tudo e Todo Advento!

VI
Em profundo Silêncio, eu li.
Lá – inédito e inóspito,
num grito interrompido,
seu último Atestado:
de Óbito!


*Jairo De Britto, em “Dunas de Marfim”

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

VÃS CONFISSÕES*


Não quero ou pretendo mais nada.
Tive, na minha idade, o suficiente
de alegria, decepção, dor e perdas.

Só gostaria de mais árvores, flores 
e alvoradas.
E, se possível, um mundo menos 
inclemente.

*Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

SUBSTANTIVO INTRANSFERÍVEL'*



O abandono não tem tempo
nem dono; não tem face:
não há ventania que o disfarce.

O abandono não tem o Tempo
como senhor; ignora a dor:
não diferencia alma ou cor.

O abandono não tem tempo
a perder; parece saber tudo:
o corpo que fere, o quê torna
o próximo espírito mudo!

O abandono não tem o Tempo
da Infância; cedo aprendeu dela
a exata e definitiva distância.

O abandono não tem o tempo
manifesto de forma clara: engana
sem mais saber; de ninguém tem rol
ou dó: falta-lhe um simples farol.

O abandono é substantivo, solitário,
vítima do assédio infante e vário:
só toma consciência do outro,
quando sob a terra já o tem morto!

*Jairo De Britto,
 em “Dunas de Marfim”

ON THE ROAD, WITH WORDS OF WISDOM*



If you want to write,
do it with the words of light.
If you want to write,
do it with the strength of life.
If you want to write,
do it with courage; be bright!
(Never be afraid of poor or fragile rimes:
they’re like ferns along quiet river’ sides)
If you want to write,
do it with your blood and heart.
(Don’t leave your sorrows or Truth apart)
If you want to write,
do it with your dearest dreams or most dreadful
feelings.
(Don’t worry: almost nobody will care about your
failures; losses or blessings...)
If you want to write,
do it with a short or long message full of wisdom.
(Words won’t count for the ones you hate or love:
only by those who read with the minds of a pilgrim)

*Jairo De Britto,
in “English Poems”

INÂNIME AUSÊNCIA*



Eu sempre chego atrasado.
Não às reuniões com outros executivos;
não para dos médicos ouvir mais motivos:
Chego atrasado quando devia Presença
àqueles que na minha Vida
hoje são amarga e solene ausência!


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

A ESTAÇÃO DAS LÁGRIMAS*


Quando a Estação das Lágrimas chegar;
quando, diante do sal sobre seu rosto pairar
- e a exata hora do terrível dia vier arder;

Quando, atrás ou adiante seu coração doído,
vir o cortinado de trevas a esconder a luz
dos seus olhos castanhos, verdes ou azuis;

Quando, sob o par de óculos de sol de Paris,
ou de esquinas do mais ermo pueril lugarejo,
não for capaz de esconder seu Luto e Pavor;

Quando tal Tempo – sempre cruel, fatal
e inesperado, tornar seu rosto disforme,
toldando-o de dores infames e sem cor;

Quando seu mais caro e próximo parente
ou amigo, aquele do peito, na Primavera
da Juventude ou Inverno da Velhice se for;

Quando a Estação das Lágrimas invadir
seus olhos vivos, tornando-se senhora voraz
do seu infante ou vetusto completo Ser:

Não adianta conselheiros sair a procurar.
Não perca seu tanto ou escasso tempo
a lhes escutar; a maior atenção lhes dar...

Não dê, alma e ouvidos, às suas tantas e tontas
palavras. Não àqueles esmerados fanáticos
(e não são poucos), no tão solícito consolar!

Antes, busque aqueles (e são poucos) que,
com discreta, sóbria e solene humildade,
lhe sussurram a clara Harmonia do Silêncio.

Aqueles que, com simples e suficientes frases,
sem nada querer, ou tanto se fazer escutar,
antes do Abraço Silente dizem carinhosamente:
“Não sei o quê falar!”

Estes são aqueles capazes de lhe ofertar alento;
de dar-lhe o primo, mais caro; necessário Silêncio,
enquanto, e sempre, que a Estação das Lágrimas
cobrir seu rosto com a ausência do calor franco.

Estes são aqueles que hão de ajudá-lo a curar
suas feridas sem Sal – até que seus olhos tornem
a suportar o Sol – que para nem todos se levanta;
para aqueles que nem sempre os sinos dobram!

Estes são aqueles que, na Estação das Lágrimas,
saberão a exata medida do Abraço à Dor Alheia
sem jamais esperar ou aventar qualquer Gratidão.

Então, enquanto o rio receber o quê lhe cabe
da Estação das Lágrimas, em conduta a oceanos
vários, lembre-se que “Não sei o quê falar!”
diz Tudo que precisa ouvir durante o Abraço:

Tudo e Mais que irá aliviar seu cansaço; o peso
da sua Dor e Desespero – que, por anos, saberão
a fel e Amargo Desterro na Terra dos Homens.

Nada é mais necessário e sublime que isso; nada
melhor que, perdido no Tempo Efêmero da Vida,
lhe soará como acalanto capaz de a todos conceder
a Alforria da Terra!

Foi o quê aprendi da Estação das Lágrimas:
Tudo Preciso: na hora fatal da Lavoura Arcaica;
quando à Terra devolvi meus Pais e Filhos!

Além de, à distância, ‘dizer’ adeus à Senhora:
Aquela – última guardiã, cúmplice e escrivã
das minhas Memórias de Infância, Juventude
e Velhice: Madrinha e Operária da Luz...

*Jairo De Britto - São Paulo, Capital.
(25 de Outubro - 15 de Novembro de 2012)

quinta-feira, 3 de maio de 2012

SUA MAIOR FANTASIA*






Eram, ainda, muito jovens.
No sentir, quase adolescentes.
Seus encontros, em Cantos,
eram entre luas sempre crescentes.

Dela, ele ouvia versos e segredos.
Tantos e todos quase incríveis:

Marotos e cheios de voraz alegria!
E medos vários, nos olhos ardentes.

Até que, longe das ruas; da lua nua,
ao falar de campos e cavalos,
savanas, dunas, flautas e falos...

Ela, inteira Estrela d’Alva na boca,
disse-lhe tudo que há muito queria:
“Você é a minha maior e melhor fantasia!”

*Jairo De Britto, em “Dunas de Marfim”

segunda-feira, 2 de abril de 2012

ÁUDIO-CAIXA


A caixa se apresenta
e arrebenta
em curioso sabor:

Viaja de mão em mão,
esbarra em tácito,
plácido portão.

Encarna o sexo do artesão
em calmo,
solene protesto.

A caixa se apresenta
e agüenta
esperto prazer:

Erra, desvairada e simples,
sem medo, sem dor.

Enfrenta a face do sonho,
explode em discreto querer,
explode segredos no ar!

Quer ver?

Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"