Crise

Por causa dos ilusionistas é que hoje em dia muita gente acredita que poesia é truque...

Mario Quintana - Sapato Florido, 1948.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

SUBSTANTIVOS QUASE ABSTRATOS*




I

Carinho
é um pássaro lazo e azul:
sublime, arisco e raro,
precisa de paz, luz e ninho. 


II
Ternura
é uma nuvem de verde cura:
precisa de abrigo
no coração da aventura.

III
Afeto
é tudo que ofertamos às almas
de mãos postas e peito aberto:
precisa de amores (di)versos.

IV
Gratidão
é um sentimento cúmplice:
precisa de coragem e culto diário
para voraz atropelar a escuridão!


Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"

O JARDIM DOS CACTÁCEOS*

Ela escrevia sobre aquilo
que em seu quintal via.
E, no Princípio,
era apenas o Verbo.
Depois, Cactáceos e gatos.

Ela escrevia, também,
sobre quase tudo aquilo
que em seu varal estendia:

Fossem roupas, Fantasias,
Gerânios, Orquídeas ou Lírios
que, à noite, soavam Melodia.

Ela escrevia sobre aquilo
que em seu quintal e vasos
plantava com sagrado desvelo,
braços ávidos e mãos delicadas.

Sempre sussurrando as palavras
mágicas. As mesmas, de forte
augúrio e firmeza; doces e macias:
com que tanto se parecia!

Assim ela sempre fazia.
E assim seu quintal e canteiro,
não só de ervas e aves,
abrigava pássaros e florescia.

Ela também desenhava,
em solene silêncio. Anoitecia
com uma prece ao vento:

Ateando cartas, plantava
e colhia futuros imensos!
Às vezes, estendia uma rede.
E, em Lótus, acendia incensos.

Ela também escrevia aforismos.
E nomeava com pedra os gatos
da casa. Mas seu Corpo de Sândalo
a ninguém deixava tocar ou saber!

Os gatos subiam nas árvores
e arranhavam seus troncos
- antes de saltar para o telhado:
Isso a desnudava em delírios.

Foi então que conheceu um Anjo.
Caiu-lhe aos pés na Madrugada.
Disse-lhe que movia montanhas;
encantava serpentes e tocava Banjo.

Ela não quis saber sobre Música.
lançou-lhe um desafio de Principado:
Que lhe falasse sobre os Cactáceos.
Assim fez, ao vê-lo encantado.

Régia Mulher  - Corpo de Sândalo,
saiba: "Trata-se duma Grande Família:
97 gêneros diversos, quase todas
plantas terrestres; poucas epífitas,
caules grossos com amplas reservas
d'água, cobertos por aflitos espinhos."

Rainha de si, ela continua a mais exigir
- surpresa e pronta a dar-lhe ouvidos:

Régia Mulher, segura do Mar minha
Vara de Vândalo Ferido: "Há nelas,
também, frutos suculentos, vários
comestíveis e flores hermafroditas."

Ela ouvia embevecida mas não satisfeita.
Ele, a queria mais atrevida; solta, afoita.

"A maioria é nativa das regiões quentes
e secas das Américas. Muitas, cultivadas
como ornamentais ou como alimento."

Antes de abraçá-la, com uma das asas
quebradas, estendeu-lhe a clave sentença:
"Algumas, como cercas vivas." Como eu...
Então soube: era quase uma camponesa!


*Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"

domingo, 19 de abril de 2015

FILHAS DO OUTONO*



As folhas afogam
a foice do tronco cortado.

As folhas sabem
da face do plano amargo.

Sabem, as folhas,
das rimas torpes e pobres.

Sabem, as folhas,
das manhas, serras e dramas.

As folhas, caindo, afogam
o Tempo que engole a História!


em "Dunas de Marfim"

terça-feira, 7 de abril de 2015

A SAGRADA TAREFA*



Descer ou subir
ladeiras tornou-se ato
cada vez mais difícil
e dolorido - um antônimo
de caros e belos anos idos. 


Prever ou ocupar
cadeiras antigas - agora
um hábito prévio àquelas
de rodas não gigantes
então plenas de alaridos.

Crer ou caminhar
nas ruas da natal Cidade
tornou-se algo bem distinto
para o menino de antes:
aquele doutros saberes
e afoita menor idade.

Recohido à desventura,
ele alimentava a coragem
sobrevoando a Ilha Atlântica:
que sob os pés lhe ardia
quando sem asas caminhava.

Mas recolhia pequenas alegrias,
guardava sonhos diversos;
comprava flores, fazia café.

A esperança? Voltava inteira
cada vez que ouvia pessoas
carentes e simples - aquelas
dotadas de maior Saber!

E sua diária, sagrada tarefa,
era com elas aprender a falar;
redescobrir o Norte perdido:
recuperar o esperto caminhar!


*Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"
[Arte; Karoly Ferenczy]

sexta-feira, 13 de março de 2015

ORAÇÃO DE INVERNO*



Quero viver
a puros e plenos pulmões.
Respirar sem temer
apuros nem desilusões.

Quero viver
savanas de caro inverno.
Aspirar ao impossível
tudo que sabe a eterno.

Quero viver
viúvo de más astúcias.
Abarcar aldeia e mundo
salva-vidas de alegrias!

Quero viver
avesso ao labirinto.
Alvejar roupas, seios e rio
com poemas em claro cio.

Quero viver
a Tudo derramar profundo.
Sempre alerta - em fértil
e vasto campo minado.

Quero reler
tudo que alheio à sorte
escrevo e ofereço à morte.
Tarefa rica em pretensão:

Talvez somente brinquedo;
talvez apenas vã Oração.



*Jairo De Britto, “Dunas de Marfim

segunda-feira, 2 de março de 2015

POEMAS MALDITOS*

Poemas malditos
são sempre escritos
como um vendaval
de verdades.

Poemas malditos
são sempre escritos
como vielas de voz única.

Poemas malditos
são sempre escritos
com suor e simplicidade.

Despidos de toda vaidade,
são aqueles, mundo afora,
escritos em qualquer Idade.

Livrai-nos pois os deuses
daqueles poemas mal ditos,
que desprezam verdades!

*Jairo De Britto,
in "Dunas de Marfim"