Crise

Por causa dos ilusionistas é que hoje em dia muita gente acredita que poesia é truque...

Mario Quintana - Sapato Florido, 1948.

segunda-feira, 14 de março de 2016

IVO, ALÉM DA UVA




Na esquina ou curva
Ivo não viu doce uva.
(Lêdo – enganou a chuva nos arrecifes)

No Primário da Vida
José reviu as pedras.
(Carlos – artífice de Minas em descaminhos)

No cruel avançar dos anos
Maria rasgou seus planos.
(“Virgem” – em vil subversão)

Na ciranda das lendas 
Jorge fincou sua espada. 
(Guerreiro – Ogum na Terra e Aruanda!) 

Nos rios da sua Belém aldeia
Nilson viu a maior teia.
(Chaves – Alma e Voz da Amazônia)

Na floresta dos sexos
Oscar não viu anexos.
(Mas um Retrato de Dorian alegrias e dores)

Na vã história do amor
Rosa viu ovos de ferro.
(Gertrude, em Paris, – o sabor da palavra)

Na clave afiada da ária
Pessoa descobriu sua Pátria.
(A Língua – de Um e Tantos nomes)

No “culto” país escravo de velas
Tarsila explodiu suas telas!
(Festa da Semana – ousadia na Paulicéia)

Nos seus caros versos eternos
Manuel escondeu infernos.
(Alegre ou triste – ele nos alimenta)

[Assim, o Verbo dos séculos em línguas,  
– reedita com Raul os fatos: 
Ardis contidos nos olhos atentos
de Cobra Norato]

Jairo De Britto,
em Dunas de Marfim

quinta-feira, 30 de abril de 2015

SUBSTANTIVOS QUASE ABSTRATOS*




I

Carinho
é um pássaro lazo e azul:
sublime, arisco e raro,
precisa de paz, luz e ninho. 


II
Ternura
é uma nuvem de verde cura:
precisa de abrigo
no coração da aventura.

III
Afeto
é tudo que ofertamos às almas
de mãos postas e peito aberto:
precisa de amores (di)versos.

IV
Gratidão
é um sentimento cúmplice:
precisa de coragem e culto diário
para voraz atropelar a escuridão!


Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"

O JARDIM DOS CACTÁCEOS*

Ela escrevia sobre aquilo
que em seu quintal via.
E, no Princípio,
era apenas o Verbo.
Depois, Cactáceos e gatos.

Ela escrevia, também,
sobre quase tudo aquilo
que em seu varal estendia:

Fossem roupas, Fantasias,
Gerânios, Orquídeas ou Lírios
que, à noite, soavam Melodia.

Ela escrevia sobre aquilo
que em seu quintal e vasos
plantava com sagrado desvelo,
braços ávidos e mãos delicadas.

Sempre sussurrando as palavras
mágicas. As mesmas, de forte
augúrio e firmeza; doces e macias:
com que tanto se parecia!

Assim ela sempre fazia.
E assim seu quintal e canteiro,
não só de ervas e aves,
abrigava pássaros e florescia.

Ela também desenhava,
em solene silêncio. Anoitecia
com uma prece ao vento:

Ateando cartas, plantava
e colhia futuros imensos!
Às vezes, estendia uma rede.
E, em Lótus, acendia incensos.

Ela também escrevia aforismos.
E nomeava com pedra os gatos
da casa. Mas seu Corpo de Sândalo
a ninguém deixava tocar ou saber!

Os gatos subiam nas árvores
e arranhavam seus troncos
- antes de saltar para o telhado:
Isso a desnudava em delírios.

Foi então que conheceu um Anjo.
Caiu-lhe aos pés na Madrugada.
Disse-lhe que movia montanhas;
encantava serpentes e tocava Banjo.

Ela não quis saber sobre Música.
lançou-lhe um desafio de Principado:
Que lhe falasse sobre os Cactáceos.
Assim fez, ao vê-lo encantado.

Régia Mulher  - Corpo de Sândalo,
saiba: "Trata-se duma Grande Família:
97 gêneros diversos, quase todas
plantas terrestres; poucas epífitas,
caules grossos com amplas reservas
d'água, cobertos por aflitos espinhos."

Rainha de si, ela continua a mais exigir
- surpresa e pronta a dar-lhe ouvidos:

Régia Mulher, segura do Mar minha
Vara de Vândalo Ferido: "Há nelas,
também, frutos suculentos, vários
comestíveis e flores hermafroditas."

Ela ouvia embevecida mas não satisfeita.
Ele, a queria mais atrevida; solta, afoita.

"A maioria é nativa das regiões quentes
e secas das Américas. Muitas, cultivadas
como ornamentais ou como alimento."

Antes de abraçá-la, com uma das asas
quebradas, estendeu-lhe a clave sentença:
"Algumas, como cercas vivas." Como eu...
Então soube: era quase uma camponesa!


*Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"

domingo, 19 de abril de 2015

FILHAS DO OUTONO*



As folhas afogam
a foice do tronco cortado.

As folhas sabem
da face do plano amargo.

Sabem, as folhas,
das rimas torpes e pobres.

Sabem, as folhas,
das manhas, serras e dramas.

As folhas, caindo, afogam
o Tempo que engole a História!


em "Dunas de Marfim"

terça-feira, 7 de abril de 2015

A SAGRADA TAREFA*



Descer ou subir
ladeiras tornou-se ato
cada vez mais difícil
e dolorido - um antônimo
de caros e belos anos idos. 


Prever ou ocupar
cadeiras antigas - agora
um hábito prévio àquelas
de rodas não gigantes
então plenas de alaridos.

Crer ou caminhar
nas ruas da natal Cidade
tornou-se algo bem distinto
para o menino de antes:
aquele doutros saberes
e afoita menor idade.

Recohido à desventura,
ele alimentava a coragem
sobrevoando a Ilha Atlântica:
que sob os pés lhe ardia
quando sem asas caminhava.

Mas recolhia pequenas alegrias,
guardava sonhos diversos;
comprava flores, fazia café.

A esperança? Voltava inteira
cada vez que ouvia pessoas
carentes e simples - aquelas
dotadas de maior Saber!

E sua diária, sagrada tarefa,
era com elas aprender a falar;
redescobrir o Norte perdido:
recuperar o esperto caminhar!


*Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"
[Arte; Karoly Ferenczy]

sexta-feira, 13 de março de 2015

ORAÇÃO DE INVERNO*



Quero viver
a puros e plenos pulmões.
Respirar sem temer
apuros nem desilusões.

Quero viver
savanas de caro inverno.
Aspirar ao impossível
tudo que sabe a eterno.

Quero viver
viúvo de más astúcias.
Abarcar aldeia e mundo
salva-vidas de alegrias!

Quero viver
avesso ao labirinto.
Alvejar roupas, seios e rio
com poemas em claro cio.

Quero viver
a Tudo derramar profundo.
Sempre alerta - em fértil
e vasto campo minado.

Quero reler
tudo que alheio à sorte
escrevo e ofereço à morte.
Tarefa rica em pretensão:

Talvez somente brinquedo;
talvez apenas vã Oração.



*Jairo De Britto, “Dunas de Marfim

segunda-feira, 2 de março de 2015

POEMAS MALDITOS*

Poemas malditos
são sempre escritos
como um vendaval
de verdades.

Poemas malditos
são sempre escritos
como vielas de voz única.

Poemas malditos
são sempre escritos
com suor e simplicidade.

Despidos de toda vaidade,
são aqueles, mundo afora,
escritos em qualquer Idade.

Livrai-nos pois os deuses
daqueles poemas mal ditos,
que desprezam verdades!

*Jairo De Britto,
in "Dunas de Marfim"

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

STILL LOST AFTER THE STORM*

 
Yes, my dear friend,
it has been very hard
to stay away from you; and for so long!

I almost don't know anymore
how is your true face and life like.

Neither do I know how much you love me;
if you truly still do.

Yes, my dear friend,
it has been very hard
to turn away from you; look at the nearest
mirror, hanging from a nail at a pale wall
of my living room of sorrows.

Yet and again, dreaming of quiet, happy old days
we spent so close that someone,
or almost everyone, would bet we're one.

Yes, my dear friend,
it has been very hard
to get to sleep, even on a pillow of clouds,
without listening to your voice;
begging for some more time:
just to be aside - on such an awesome silence!

Yet and again, I keep trying to follow
your footsteps while drowning
in the dust; shadows of my mind at dusk.

Yes my dear friend,
it has been very hard
to leave the trails I chose to myself,
at the moment I believed I would find you
after the storm: thought rain and the snow gone,
would allow our meeting - as the sun vanishes!

Yet and again, at the Endless Summer,
on the far horizon over the Atlantic Ocean,
no more rimes on my lips - nor a dime in my pocket.


*Jairo De Britto, in "English Poems"

 São Paulo, Capital - Brasil (17/Junho/2003)

[Painting  by  Christian Schloe]

quinta-feira, 24 de abril de 2014

VIAJAR É MAIS QUE PRECISO*


Preparou-se para aquela
que não sabia ser sua pequena,
grande ou maior viagem.

Preparou-se para aquela
que não sabia ser sua amena,
áspera ou derradeira viagem.

Preparou-se para aquela
que não sabia ser penúltima,
ou mais uma daquelas passagens.

E o fez com o mais cuidadoso
e lúcido, ácido e ávido pensar.

Sabia que devia; que havia 
de assim melhor ser: para ele
um singular e sobreviver:

Fosse na Luz aguda e infinita
Ou na Treva arguta e maldita.

Mas, sem rancor ou medo,
ímpar Fé ou maior descrer,
sabia que já estava pronto.

Mãos e olhos fixos; o corpo
disposto, as mãos desatadas:
nos lábios as últimas palavras.

Por entre os dedos, o Tempo,
em horizonte perto ou distante,
não mais lhe ditava as regras!

Ele, nem vítima, herói ou rei, 
não mais construía verdes pontes. 
Agora, só admirava o abismo.

Assim, ciente de que o coração;
da sua, nem árdua, original, difícil 
e inversa decisão, sem medos 
ou oração, já não vinha tão cedo. 



em "Dunas de Marfim"


[Arte: Gabiel Pacheco]

quarta-feira, 16 de abril de 2014

A GRAMÁTICA DOS ANJOS*


Vejo a aldeia
através do espelho.
Sei que tudo espera:

Todas as dores, todas as letras;
o Verbo vivo inteiro.

Vejo a aldeia
através do espelho.
Sei que tudo esmera:

Todas as flores, todas as torres;
a gramática dos anjos.

Vejo a aldeia
através do espelho.
Sei que tudo escuta:

Todo alarde, todo silêncio;
o completo futuro possível.

Através da aldeia
vejo o espelho.

Que me descobre e desnuda
sem cerimônia ou fé.

Através do espelho
vejo aldeia:

Pequena ou grande,
gosto de, ao longo da Baía,
desvenda-la à pé!

*Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"