Crise

Por causa dos ilusionistas é que hoje em dia muita gente acredita que poesia é truque...

Mario Quintana - Sapato Florido, 1948.


quarta-feira, 16 de abril de 2014

A FALSA IDADE DO TEMPO*


Não há Tempo pra Tudo:
nem bem se planta, colhemos
algo de bom ou mau 
que nunca sequer pretendemos.


Não há Tempo pra Tudo:
nem bem se nasce, aprendemos
a chorar as lágrimas quentes;
primitivas - que nunca sabemos. 

Não há Tempo pra Tudo:
cedo ou tarde, todos percebemos
quão breve é a Vida que temos;
tão falsos os versos que lemos.

*Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"


[Arte: Eleni Tsami]

MÃOS À OBRA DOS VELHOS SALMOS*



Minhas mãos não abraçam venturas. 
Já não há venturas além do arco-íris.

Minhas mãos não aventuram: aturam. 
Já tão desnaturadas, buscam ares vis.

Minhas mãos são sósias nada graves.
Mas traves, há muito desmascaradas.

Minhas mãos não aplaudem turbas,
após as curvas que teu corpo oferece. 

Mãos sacanas: noutras ilhas buscam
rios, ruivas solares; outras Havanas.

Mãos que sonham paupérrimas rimas.
Puxo teus cabelos como caras crinas.

Mãos que mais sabem a pão de mel:
que arremedam aquela sala-de-estar
do bem-estar dos lábios do sol no céu.

Mãos cansadas, velhas, rotas, árticas;
que arremessam o pão e alimentam, 
na rua, circos e fogueiras fantásticas. 

Mãos que sempre roubam e amam,
com fome, a mais próxima fêmea.

Mãos que aliciam e amam, sem nome,
irmãs safadas, acesas, atentas à noite!

(Mãos que, alertas, apertam outras)

Mãos que desatam nós e gargantas;
que caçam palavras em vastas ravinas.

Mãos que desobedecem e aquecem
cascatas, flores e pernas - vão açoite!

Mãos que reconhecem o corpo alado,
planícies, portos e rostos além demais.

(Mãos que afogam as datas marinhas)

Assim, como quem não quer nada:
entre uma e outra suave braçada.

*Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"

A ÚLTIMA VIAGEM*





Eu, já dentro 
do vazio elevador.

Ele, no outro lado;
no longo corredor.

Entre nós, a mala 
– grande! 

Mas não maior 
que minha imensa Dor.

Eu, olhos molhados,
disse:


“Adeus, Meu Filho!”

(Ali, escapou-me – por aflição)

Ele, olhos surpresos,
peguntou:
“Porquê 'Adeus', Papai?”

(Então, não intuí a premonição)

Eu, perdido no peso dos anos, 
respondi:
“Quis dizer 'Ciao', Meu Filho.”

(Mas ali, não cabia disfarce – Perdão) 

Nossos olhos, quatro ilhas de Amor,
entendiam que o táxi, na garagem,
esperava. 

(Assim foi – a minha última viagem) 

Jairo De Britto, em “Dunas de Marfim”

terça-feira, 25 de março de 2014

COLHEITA IMPREVISTA*

I

Pérolas de água-doce e boa caligrafia.
Papel Pólen de única e rara gramatura.
Uma caneta esfero clássica e fina.

II

A imponência de vestir um terno preto.
Uma bengala high tech firme e leve.
A ousadia da cotidiana e velha pirataria.

III

Cadernos e blocos diversos à mão.
Laudas A4 de cores várias e fortes.
Uma cadeira que alicie corpo e olhos.

IV

O Grito que em silêncio roubei em Oslo.
A cruel e estúpida Rosa de Hiroshima.
Outras rosas tantas de Gertrude Stein.

V

Sonhar com a Biblioteca de Alexandria.
Esquecer o homem que falava Javanês.
Lembrar de Picasso na Oca e no Louvre.


*Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"
(São Paulo, Capital - 22/Setembro/2004)

[Arte: Pablo Picasso]

OS SIGNOS CELTAS*



Eu quero você assim:
como ao Sol e à Lua

- quente, crua e nua.

Há, entre nós, a vírgula
e a clara voz da montanha:
um cálido e árido caminho.

Uma inteira e alva noite,
uma luz, ave, a medalha:
uma espada, cruz e ninho.

Um forte segredo, corrente
nas veias: um selvagem,
solene e último carinho.

* Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"

terça-feira, 18 de março de 2014

ENTREGA PRÉVIA *

 

Coloquei, a teus pés,
rosas molhadas, vermelhas:
aquelas que tanto amavas.
II
Sobre tua fronte augusta,
atei aquelas novas guirlandas
que em transe desejavas.
III
Coloquei, sobre teus seios,
mirra, incenso e visgo nobre;
velas, moedas de ouro e cobre.
IV
Sobre teu ventre alvo,
joguei todas as runas e cartas:
lua, sol, punhais, savanas!
V
Coloquei, à tua mercê,
minha pele atlântica e morena:
minhas cicatrizes e dores tantas
VI
Sobre teus olhos, derramei sonhos
diversos; pequenos e grandes:
minha afiada fieira de fracassos.
VII
Coloquei, em tuas mãos frias,
o fogo, faca, os beijos e o queijo:
as armas do meu exato desejo.

*Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim" 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

BORBOLETA*


Lento e suave bordado.
Brisa e bolero,

leve e ousado,
tatuado na alma...
distraída do vento.

*Jairo De Britto
em “Dunas de Marfim”

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

LUA, MADRUGADA E MORTE*


Eu olho para a Lua quase todos os dias. Ontem eu olhei, mas rapidamente. O singular Eclipse invadiu minha atenção, descaradamente, pelos telejornais. Três planetas alinhados (!) atrairam e distrairam astrônomos e leigos mundo afora! Compreensível (claro) que o fenômeno tenha sido celebrado, estudado e "traduzido" também por muitos astrólogos.

***

Não fiquei supreso, alegre ou triste. Trata-se apenas daquilo que acontece e existe; do efêmero que nos chega e assalta durante a ausência de nossa mais arguta atenção ou simplória (que seja) intenção.

***

Eu olho com Ternura, Saudade (e mansamente) para Você todos os dias. Especialmente à noite, enquanto dorme. Embora tímido, romântico e sobre tantas coisas absolutamente cético, explico que não sou originalmente terno: Você me inspira Ternura!

***

E a Saudade, naqueles momentos, deve-se ao saber e sentir que a mulher que amo está assim: tão bem e distante; vagando em sonhos, transpondo precipícios, tateando no escuro ou sendo ofuscada por 'candeeiros' estelares - na vastidão de bilhões de galáxias! Ou que brinca com anjos, por entre nuvens azuis - em formato de animais que sabem a algodão doce.

***

Não me canso  de acariciar seu corpo, de velar e amansar seu sono. De, às vezes, apaziguar seus sonhos ao perceber quando um provável pesadelo se aproxima... Também com o sol a pino, eu procuro ouvir sua voz distante e quente. A voz da minha menina, filha, mulher, amante e mãe!

***

Quando lhe abraço, ou à distância me faço ouvir, você sabe perscrutar meandros do meu discurso e tato; percebe como estou, o quê se passa ou passou.

Quando me aninho em seus braços, é para quase sempre dizer-lhe o que não digo; para demonstrar-lhe a pura saudade daquilo que poderia ter sido - daquilo que poderá ser ou é...

***

Você se preocupa por demais com o meu "estar feliz"! Pois tranquilo lhe digo, sem orgulho ou medo, que vou ao Inferno e volto mais forte; que aos meus dias mais solenes e tristes devo a paternidade de ser mais que singular: eu busco a Beleza de todos os lugares, de todos os séculos, do Passado e Futuro.

Quero o Arco-Íris - o Pote de Ouro 'amarrado' numa das suas pontas; o inteiro Presente, a fauna, flora e gemas do Planeta que ora me acolhe. 

***

Aos 11 anos, descobri que era (e sou) uma Pessoa Noturna. À noite, raciocino melhor e mais rápido, escrevo melhor; observo e escrutino meu self com o mais afiado bisturi de que disponho: minha Língua/meu Verbo. Minha implacável autocrítica e as questões substantivas que, por entre ossos, sangue e estrelas, trafegam no multiverso há zilhões de milhões de milênios!

***

É muito bom chegar aos 50 sabendo que nada sei (Sócrates); que começo a me tornar o homem maduro que desejo ser quando aprendo a rir de mim mesmo (Goethe); de meus pequenos problemas que, com a lupa voraz do neurótico, amplifico - me culpo e castigo, inútil e bobamente -, em dias sombrios.

***

Gostaria de ter sido marceneiro, tipógrafo ou jardineiro. Gostaria de não ter sido tão vil e solerte quanto por vezes fui. Gostartia de aprender a mais perdoar. De encontrar homens com os quais pudesse conversar sobre sentimentos mais profundos ou mais confusos; mais prosaicos e profanos ou mais caros e metafísicos!

Bobagem. Falar com homens sobre Amor, Solidão e Morte (desta, inclusive, considerando-se Camus e a opção filosófica/existencialista pelo Suicídio), na sociedade hodierna, é praticamente um tabu; um pecado. Homens não falam, com outros homens, sobre tais "coisas"...

***

Mas, há um Oásis farto de alentos. Um rio em cio, com flora e fauna ricas em acalantos: as Mulheres, com sua afiada; afinada Intuição, sua augusta Sensibilidade. Elas, Atlânticas Amazonas, que emprestam seus sentidos todos e compartilham aquilo que a maioria dos homens considera 'nada' - além de um sanduíche de sandices!

***

Como vê, Querida, a noite é minha amiga; parteira de prosa e versos em línguas várias. É paciente, sabe que sou lento: sabe que "eu ando devagar, mas nunca para trás" (Abraham Lincoln). Aliás, Caranguejos não andam "para trás"!

***

Ao fim e ao cabo, o mais importante; a pura Verdade: eu quero a Beleza inteira das Madrugadas, da Morte e todas as Luas - que me iluminam enquanto tantos e quase todos dormem. E é bom que durmam. Para que este silêncio, e a Música de Debussy ("Clair de Lune" na agulha e veia), comigo reflita sobre a proposta do professor e filósofo espanhol Fernando Savater, em seu livro "Perguntas da Vida": 

***

"(...) É a consciência da morte que transforma a vida em assunto muito sério para cada um, algo que deve ser pensado. Algo misterioso e tremendo, uma espécie de milagre precioso pelo qual devemos lutar, em favor do qual temos que nos esforçar e refletir. Se a morte não existisse, haveria muito o que ver e muito tempo para vê-lo, mas muito pouco o que fazer (fazemos quase tudo para evitar morrer) e nada em que pensar."


***

*Jairo De Britto, em "Verdes Crônicas"
 (São Paulo/Capital, Brasil - 05/Maio/2004)

sábado, 21 de setembro de 2013

GOSTO DE VITÓRIA* (Crônica)


"Gosto das palavras que sabem a terra, a água, aos frutos de fogo do verão, aos barcos no vento; gosto das palavras lisas como seixos, rugosas como pão de centeio. Palavras que cheiram a feno e a poeira, a barro e a limão, a resina e a sol." 

 Eugénio de Andrade, em "Rosto Precário"

 Ela colhe flores, cata folhas, conchas e coleciona fotos de gaivotas e Andorinhas do Mar. Do mar que tudo permeia, que salga a Ilha de Vitória e as outras menores em torno. As flores, silvestres, são raras surpresas de fundo de quintal. As folhas, ela gosta das bem exóticas, ainda que nem todas caibam entre as páginas de seus maiores livros. As fotos, ela distribui em dezenas de álbuns de cores e propósitos os mais suaves.

Ela acolhe os amantes com cético ar de marinho Penedo; com a Pedra dos Olhos ávidos nem sempre de amor.

Ela os seduz nas praias, Camburi de costas ensolaradas! Usa armas, artes e manhas fatais: o sol, a lua, o sal, a melhor prosa ou a mais barata pornografia.

Ela os mantém submissos e ardentes com sábias e sacanas carícias de púrpura paixão; os enche de júbilo, decorando seus corpos com mãos de argila num alfabeto pagão.


 Ela observa os homens, mulheres e crianças como o vôo das gaivotas e andorinhas que desenham seu litoral. Na ponta da Língua, todos sentem sua Baía.

Ela imagina: "Como são livres, pobres e lindos! E como nem disso desconfiam!" Às vezes, tenta classificá-los como às gaivotas e andorinhas. Logo desiste: "Há tantas espécies de homens. Mais fácil tentar compreender os pássaros".

Ela gosta de andar por entre e ler os nomes de suas ruas e ladeiras, inventariá-las em letras góticas espalhadas em grandes folhas de papel schüller. Ali, onde com lápis especiais e ouro em pó, desenha, grava e recompõe seu casario, enaltecendo sua geografia.

 Ela sabe abrigar poetas, tolerar jornalistas e políticos, e guardar suas dúvidas sobre as reais intenções dos cronistas. Ainda assim, com sua geografia aviltada e seu Vento Sul atrevido, consegue entreter leitores sem maior cerimônia: enquanto cata conchas e folhas, enquanto colhe flores e reúne pássaros na gaveta.

 Ela é anônima - tamanha Baía não suporta mistério que o Manguezal não desvende. Está sempre presente e sabe aonde ir. No cais e nas praias, nos bares, nas escadarias e nos becos distribui seus passos e beijos salgados.

 Ela não tem medo de nada, sorri como poucas mulheres se atrevem; sonha folhas, flores, conchas, peixes e pássaros. Perto de homens, parece uma árvore: caule retorcido, galhos afagando o Vento Sul, raízes sugando a seiva dos séculos. Para crianças, se veste de nuvem redonda de azul e cara risonha. Às mulheres, oferece segredos de fêmea amorosa.

 Ela não é uma terceira pessoa - é Multidão quando grita! Não se acha tão bela e não se apaixona com facilidade. Quando acontece, mente: diz que não e se entrega.

Ela nunca me diz seu nome, não revela sua exata idade nem chora quando me despeço. Mas quando volto, quando revejo suas árvores, suas ruas, suas praças e pássaros; quando reencontro suas mulheres e ilhas, sempre me surpreendo! Eu não sabia que havia tantas espécies de andorinhas e gaivotas, tantas diversas cores, tantos humores alados. Também não sabia que ainda existiam mulheres, ilhas e cidades assim...

Jairo De Britto
 *Crônica publicada no 1º Volume da série "Escritos de Vitória" (1993). 
 Secretaria Municipal de Cultura e Esportes de Vitória, Espírito Santo - Brasil.
 Secretário: Joaquim Beato 
Coordenadora do Projeto: Miriam Cardoso

terça-feira, 17 de setembro de 2013

QUERÊNCIAS PATERNAS* (Crônica)

 [Tela de Alexander Averin]



I'm nobody______________________________Emily Dickinson
Are you nobody, too?
Then there’s two of us – don’t tell (…)
How dreary to be somebody!
How public, like a frog
To tell your name the livelong day
To an admiring bog (…)"

Quero tornar a ver as ondas, areia, rios e mar, que povoaram os pés dos sonhos
da minha infinda infância, quase de nada até agora bem dita.

Quero saber da história a começar pelo fim, sem medo de olhar pela janela do  
Trem Fantasma - nem de cair da Roda Gigante: aquele pôr do sol ainda repousa
sobre meus ombros. E sua lembrança envolve um pacto com o homem que comandava
a velha máquina do Parque de Diversões: parar, por pelo menos 10 minutos, no mais
alto ponto que chegássemos.

Queríamos ver horizontes sem cerimônias ou pressa; tornar a ver o sol morrer – cansado
de mais um dia por aqui iluminar e aquecer. E queríamos mais: ver o nem tão simples
e vagaroso romper da Lua, já em descarado alvoroço para toda a noite enfeitar.

Sei que você se lembra de nossas pequenas, grandes e fortuitas aventuras. Sim, porque
nossas viagens, gostávamos nós de fazê-las sozinhos. Como se, já então, soubéssemos
como haveria de vir a ser: uma Caixa de Tesouros reservada para guardar nossas todas
lembranças a dois. Só nossas, em únicos Tempo e Sabor.

Assim, seriam sempre mais saborosas que o melhor chocolate; que o mais quente
saquinho de pipocas; que os bichos de pelúcia que, a tiros, derrubávamos das prateleiras
dos Parques. Eu também me lembro que, quando tal ideia/aventura ia começando a surgir
em nossas cabeças, trocávamos olhares cúmplices...

Sabíamos que nada nos faria voltar atrás na escolha do nome que deveria ter nosso novo,
nada arisca, e querido filhote de cão. Assim foi com Delta, por exemplo.

Sabíamos que, em silêncio, pegaríamos nossas coisas e fugiríamos para uma praia
distante para ver e fotografar o Sol nascendo. Ou, para um hotel nas montanhas, à noite,
sem a ninguém avisar. Quando da Escócia, você já rapaz, lhe enviei um postal com rápidas
linhas, sabia eu como você iria sentir-se lá, no Sul da Califórnia (em Laguna Beach),
ao recebê-lo.

Há coisas que o Pai sabe. Há outras que o Filho sabe. E há as mais importantes: aquelas
que só ambos sabem! São os tais pequenos/grandes tesouros que, como a palavra  
Sabedoria, escrita na areia e apagada pela primeira das pequenas ondas, só nós vimos
surgir, desaparecer e sua razão compreender...

Agora, lhe digo: quando eu choro, soluço trovões! E quando escolho minhas armas, uma
é sempre daquelas espadas que descansam à beira de cercas ou muros (de São Jorge),
ou que dispostas estão na Távola Redonda.

Hoje, eu lhe digo: tenho chorado muito. Mas sei que, quando luto, enfrento dragões que
saltam do meu coração para os vales verdes: belos mas não menos escuros que aqueles
que atravesso ao voltar do Inferno!

Há anos não visito os Parques... E minhas “diversões” são tão diversificadas que há
muito já não merecem tal nome. Parques industriais invadiram meus olhos e vida sem
a menor cerimônia. E minhas mãos e mente servem a propósitos de guerras que nem
mais de santas se disfarçam.

Quando, e isso quer dizer todo dia, me preparo para lutar, sei que meu maior e mais
temível inimigo sou eu. Isso não me dá qualquer vantagem, como poderia um infante
supor.

Eu luto comigo; com um específico alfabeto! E minto sobre a enorme inveja, que sempre
escondo, de não ser capaz de a outros alfabetos enfrentar. Calo, quando tentam distrair
minha afoita vontade de ampliar espaços; de abraçar deuses que o próprio cínico pó da
História tenta esconder. Diariamente minto para continuar a acreditar que aquela
Infâncianão, nunca, jamais existiu.

Não! Nunca, jamais vivi tudo aquilo; aquele misto de cores, sabores, odores: olivas,
capim, benjoim, alface e alfazema, almíscar e Lua Cheia; as Águas de Março, os
riachos e tantos nomes de pedras e pássaros. E todos aqueles livros, tantos livros - que
uma vez fiquei tonto! Como peão de xadrez - ou aqueles, de som similar e grafia
diversa, aos quais se amarra um barbante e se solta no ar com a força da mão, nunca
mais voltei... Tonto de Saudade e Amor à Terra, engolir me deixei.

Hoje, eu lhe digo: olho para quase tudo com aquela enorme estranheza que a mim se
juntou, há séculos, como irmã - atada ao meu mais íntimo Ser. E quando luto, o faço
porquê nada mais me resta fazer. Tenho que combater o bom ou o mau combate; objeto
ou abjeto, quase nada mais importa, além das letras que junto – além das letras que
ajunto para, com as mãos em concha, chegar até você e lhe oferecer.

Meus filhos são meus outros dois alfabetos dessa matéria de almas que, ajuntadas,
chegam na hora certa de acertar contas com outras diversas dimensões. Eles são carne,
sangue, Alma e Verbo; a prima e única ideia de cada vez melhor ser – sem nada mais
a ninguém dever! Amém. 

*Jairo De Britto

Vitória, Espírito Santo - Brasil.
(13/Janeiro/2010)