Crise

Por causa dos ilusionistas é que hoje em dia muita gente acredita que poesia é truque...

Mario Quintana - Sapato Florido, 1948.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

LUA, MADRUGADA E MORTE*


Eu olho para a Lua quase todos os dias. Ontem eu olhei, mas rapidamente. O singular Eclipse invadiu minha atenção, descaradamente, pelos telejornais. Três planetas alinhados (!) atrairam e distrairam astrônomos e leigos mundo afora! Compreensível (claro) que o fenômeno tenha sido celebrado, estudado e "traduzido" também por muitos astrólogos.

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Não fiquei supreso, alegre ou triste. Trata-se apenas daquilo que acontece e existe; do efêmero que nos chega e assalta durante a ausência de nossa mais arguta atenção ou simplória (que seja) intenção.

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Eu olho com Ternura, Saudade (e mansamente) para Você todos os dias. Especialmente à noite, enquanto dorme. Embora tímido, romântico e sobre tantas coisas absolutamente cético, explico que não sou originalmente terno: Você me inspira Ternura!

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E a Saudade, naqueles momentos, deve-se ao saber e sentir que a mulher que amo está assim: tão bem e distante; vagando em sonhos, transpondo precipícios, tateando no escuro ou sendo ofuscada por 'candeeiros' estelares - na vastidão de bilhões de galáxias! Ou que brinca com anjos, por entre nuvens azuis - em formato de animais que sabem a algodão doce.

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Não me canso  de acariciar seu corpo, de velar e amansar seu sono. De, às vezes, apaziguar seus sonhos ao perceber quando um provável pesadelo se aproxima... Também com o sol a pino, eu procuro ouvir sua voz distante e quente. A voz da minha menina, filha, mulher, amante e mãe!

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Quando lhe abraço, ou à distância me faço ouvir, você sabe perscrutar meandros do meu discurso e tato; percebe como estou, o quê se passa ou passou.

Quando me aninho em seus braços, é para quase sempre dizer-lhe o que não digo; para demonstrar-lhe a pura saudade daquilo que poderia ter sido - daquilo que poderá ser ou é...

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Você se preocupa por demais com o meu "estar feliz"! Pois tranquilo lhe digo, sem orgulho ou medo, que vou ao Inferno e volto mais forte; que aos meus dias mais solenes e tristes devo a paternidade de ser mais que singular: eu busco a Beleza de todos os lugares, de todos os séculos, do Passado e Futuro.

Quero o Arco-Íris - o Pote de Ouro 'amarrado' numa das suas pontas; o inteiro Presente, a fauna, flora e gemas do Planeta que ora me acolhe. 

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Aos 11 anos, descobri que era (e sou) uma Pessoa Noturna. À noite, raciocino melhor e mais rápido, escrevo melhor; observo e escrutino meu self com o mais afiado bisturi de que disponho: minha Língua/meu Verbo. Minha implacável autocrítica e as questões substantivas que, por entre ossos, sangue e estrelas, trafegam no multiverso há zilhões de milhões de milênios!

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É muito bom chegar aos 50 sabendo que nada sei (Sócrates); que começo a me tornar o homem maduro que desejo ser quando aprendo a rir de mim mesmo (Goethe); de meus pequenos problemas que, com a lupa voraz do neurótico, amplifico - me culpo e castigo, inútil e bobamente -, em dias sombrios.

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Gostaria de ter sido marceneiro, tipógrafo ou jardineiro. Gostaria de não ter sido tão vil e solerte quanto por vezes fui. Gostartia de aprender a mais perdoar. De encontrar homens com os quais pudesse conversar sobre sentimentos mais profundos ou mais confusos; mais prosaicos e profanos ou mais caros e metafísicos!

Bobagem. Falar com homens sobre Amor, Solidão e Morte (desta, inclusive, considerando-se Camus e a opção filosófica/existencialista pelo Suicídio), na sociedade hodierna, é praticamente um tabu; um pecado. Homens não falam, com outros homens, sobre tais "coisas"...

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Mas, há um Oásis farto de alentos. Um rio em cio, com flora e fauna ricas em acalantos: as Mulheres, com sua afiada; afinada Intuição, sua augusta Sensibilidade. Elas, Atlânticas Amazonas, que emprestam seus sentidos todos e compartilham aquilo que a maioria dos homens considera 'nada' - além de um sanduíche de sandices!

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Como vê, Querida, a noite é minha amiga; parteira de prosa e versos em línguas várias. É paciente, sabe que sou lento: sabe que "eu ando devagar, mas nunca para trás" (Abraham Lincoln). Aliás, Caranguejos não andam "para trás"!

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Ao fim e ao cabo, o mais importante; a pura Verdade: eu quero a Beleza inteira das Madrugadas, da Morte e todas as Luas - que me iluminam enquanto tantos e quase todos dormem. E é bom que durmam. Para que este silêncio, e a Música de Debussy ("Clair de Lune" na agulha e veia), comigo reflita sobre a proposta do professor e filósofo espanhol Fernando Savater, em seu livro "Perguntas da Vida": 

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"(...) É a consciência da morte que transforma a vida em assunto muito sério para cada um, algo que deve ser pensado. Algo misterioso e tremendo, uma espécie de milagre precioso pelo qual devemos lutar, em favor do qual temos que nos esforçar e refletir. Se a morte não existisse, haveria muito o que ver e muito tempo para vê-lo, mas muito pouco o que fazer (fazemos quase tudo para evitar morrer) e nada em que pensar."


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*Jairo De Britto, em "Verdes Crônicas"
 (São Paulo/Capital, Brasil - 05/Maio/2004)

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