Crise

Por causa dos ilusionistas é que hoje em dia muita gente acredita que poesia é truque...

Mario Quintana - Sapato Florido, 1948.

terça-feira, 25 de março de 2014

COLHEITA IMPREVISTA*

I

Pérolas de água-doce e boa caligrafia.
Papel Pólen de única e rara gramatura.
Uma caneta esfero clássica e fina.

II

A imponência de vestir um terno preto.
Uma bengala high tech firme e leve.
A ousadia da cotidiana e velha pirataria.

III

Cadernos e blocos diversos à mão.
Laudas A4 de cores várias e fortes.
Uma cadeira que alicie corpo e olhos.

IV

O Grito que em silêncio roubei em Oslo.
A cruel e estúpida Rosa de Hiroshima.
Outras rosas tantas de Gertrude Stein.

V

Sonhar com a Biblioteca de Alexandria.
Esquecer o homem que falava Javanês.
Lembrar de Picasso na Oca e no Louvre.


*Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"
(São Paulo, Capital - 22/Setembro/2004)

[Arte: Pablo Picasso]

OS SIGNOS CELTAS*



Eu quero você assim:
como ao Sol e à Lua

- quente, crua e nua.

Há, entre nós, a vírgula
e a clara voz da montanha:
um cálido e árido caminho.

Uma inteira e alva noite,
uma luz, ave, a medalha:
uma espada, cruz e ninho.

Um forte segredo, corrente
nas veias: um selvagem,
solene e último carinho.

* Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"

terça-feira, 18 de março de 2014

ENTREGA PRÉVIA *

 

Coloquei, a teus pés,
rosas molhadas, vermelhas:
aquelas que tanto amavas.
II
Sobre tua fronte augusta,
atei aquelas novas guirlandas
que em transe desejavas.
III
Coloquei, sobre teus seios,
mirra, incenso e visgo nobre;
velas, moedas de ouro e cobre.
IV
Sobre teu ventre alvo,
joguei todas as runas e cartas:
lua, sol, punhais, savanas!
V
Coloquei, à tua mercê,
minha pele atlântica e morena:
minhas cicatrizes e dores tantas
VI
Sobre teus olhos, derramei sonhos
diversos; pequenos e grandes:
minha afiada fieira de fracassos.
VII
Coloquei, em tuas mãos frias,
o fogo, faca, os beijos e o queijo:
as armas do meu exato desejo.

*Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim