Crise

Por causa dos ilusionistas é que hoje em dia muita gente acredita que poesia é truque...

Mario Quintana - Sapato Florido, 1948.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

ÁUDIO-CAIXA


A caixa se apresenta
e arrebenta
em curioso sabor:

Viaja de mão em mão,
esbarra em tácito,
plácido portão.

Encarna o sexo do artesão
em calmo,
solene protesto.

A caixa se apresenta
e agüenta
esperto prazer:

Erra, desvairada e simples,
sem medo, sem dor.

Enfrenta a face do sonho,
explode em discreto querer,
explode segredos no ar!

Quer ver?

Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"

APENAS UM BEIJO


Do pescoço à boca
há um longo caminho
que a língua se atreve,
atenta, a percorrer.

Do pescoço à boca
os sonhos avultam;
as mãos se soltam:

Corpo afora, aferem
e informam os amantes.

Do pescoço à boca
repousa urgente caminho:

Até que a língua descubra,
escute, ensine, ataque
e emprenhe de amor
jovens e velhos amantes.

Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"

(Tela By Henryk Hector Siemiradzki)

CORPOGRAFIA


No pátio do seu rosto
planto margaridas e rubis.
Quando chove,
colho sempre-vivas e zumbis.

No átrio do seu colo
cravo planícies e vulcões.
Quando anoitece,
acato planaltas emoções.

No prelo dos seus olhos
imprimo dúvidas e versos.
Quando amanhece,
amanso corpos perplexos.

No meio dos seus sonhos
espalho sais e certezas.
Quando acordamos,
amarro caras e surpresas.

Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"

DATILOGRAFIA


Meus dedos apontam
caminhos que desconheço,
de vária significação.

Meus dedos invejam
a glória de tantas vidas,
na faina da edificação.

Meus dedos conferem
os anos que arremesso
nas veias do Tempo vão.

Meus dedos navegam
mares azuis e verdes;
galeões na jaula do coração.

Meus dedos expiam
caros pecados, em toques
avessos a qualquer emoção.

Jairo De Britto, em “Dunas de Marfim”

FILHAS DO OUTONO


As folhas afogam
a foice do tronco cortado.

As folhas sabem
da face do plano amargo.

Sabem, as folhas,
das rimas torpes e pobres.

Sabem, as folhas,
das manhas, serras e dramas.

As folhas, caindo, afogam
o Tempo que engole a História!


Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"