Crise

Por causa dos ilusionistas é que hoje em dia muita gente acredita que poesia é truque...

Mario Quintana - Sapato Florido, 1948.

quarta-feira, 14 de março de 2012

O PRATO DO DIA

(Paint by Alexander, John White)


Enquanto escrevo em dieta,
arranho e arranco cada som
em constante crescente débito.

Arco avenidas nos ombros:
trançando redes, afio sinfonias.

Enquanto escrevo sob alerta,
fisgo um fiapo de certa festa
em pródiga despensa de crédito.

Trago nos olhos jardins sem nome:
com versos redescubro alegrias.

Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"

CLARA POSTURA

(Painting by Albert Bierstadt )


Não peço desculpas
não peço licenças.

Não temo reconciliações
não tramo desavenças.

Não gosto da cínica paisagem
explícita no bárbaro asfalto.

Mas faço meu jogo confesso:
convivo com a dor que relato.

*Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"

BUSCA MARÍNTIMA

(Painting by Albert Bierstadt)

Encontrar no mar
todas as datas do ontem.
Como tartarugas
que sabem a sal e vento.

Encontrar no mar
todas as forças do homem.
Como bois
que lambem catarinas em farras.

Encontrar no mar
todas as favas do céu.
Como pássaros
que abrem asas vadias em centos.

Encontrar no mar
todas as algas do amor.
Como almas
que cobram presentes palavras.


Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"

sábado, 10 de março de 2012

CANTO EM DÓ MENOR


Canto cada sílaba.
Com olhos de cabra-cega,
avisto fontes de muitas cores.

Canto cada nota.
Com olhos de ser primeiro,
diviso frondes de pares dores.

Canto cada rota.
Com olhos de faquir agreste,
adivinho mau tempo e dissabores.

Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"

À DERIVA DO SER


De Camões a Gregório,
navego em Atlântico caos.

Nas mãos, o surrado
e mal escrito diário.

No que resta do corpo,
o pretensioso inventário!


Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"

quarta-feira, 7 de março de 2012

INTERVALO

(Painting by Anna Ancher)

Encantar
a vida, a forma
discreta do Ser.

Encantar
a orgia, a borda
esperta do crer.

Encantar
a morna espera do saber.

Até que a morte
nos amordace ou separe.


Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"

PASSATEMPO

(Tela de Diego Riveira)


Cumular lírios
costurar esperanças
caminhar rente ao Rio
cultivar sonhos e risos:

Um disfarce mortal
que leva a vida alegre inteira.

Carregar dúvidas
corromper o tédio
construir venturas
cair de amor e cansaço:

Mistura fina de ocultos sorrisos
que levam a vida triste inteira.


Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"

BARBARIDADE

(Tela de Edgar Degas)


A bárbara idade dos olhos,
que inquietos passeiam a face
e pousam lascívia e brilho
nos pares próximos.

A bárbara idade dos sonhos,
que despertos parecem eclodir
como aves de rapina ao relento.

A bárbara idade dos falos,
que compõem o rito dos signos
e explodem consoantes de si.

A bárbara idade dos amantes,
que sorvem o Tempo
com sonhos quase perpétuos,
além de caras carícias úmidas.

A bárbara idade se revela
encantamento próprio;
faz desfilar o cortejo de atos
que embalam sonhos e súplicas.


Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"

terça-feira, 6 de março de 2012

TEMPO IMEDIATO

(Painting by Salvador Dali)



O Tempo é tema
ingrato, teclas de sono
sobre células ávidas:

Tapete perene
sob meus pés de sonho.

O Tempo cobre
de penas e alegrias
minhas tantas noites:

Confere novas cores
a meus dias di-versos.

O Tempo sofre
aparas, afere augúrios,
distribui o terror inédito:

Insólito e voraz,
ele cobra meus anos.

O Tempo enorme,
às vezes cálido e audaz,
abriga amor e medo:

Descobre self, sonhos
e faces que aflito exponho.

Jairo De Britto,
In Dunas de Marfim

INTENÇÕES DIVINAS

(Painting by Martin Johnson Heade)

Os deuses criaram madrugadas estreitas
para que bêbados, pássaros e poetas
repousassem seus lábios e penas,
após dias de pura, inútil tempestade.

Os deuses criaram noites inteiras
para que putas, políticos e poetas
afiassem suas unhas, artimanhas e gemas,
após dias de enferma, escusa voragem.

Os deuses criaram manhãs de algazarra plenas
para que aves e animais, todos e tontos,
derramassem suas cestas de teses e fatos
na távola insone de cada um de seus mundos.

As tardes, inteiras e extremas, os deuses
reservaram para que os homens descalços,
de boa ou má vontade, sóbrios ou falsos,
revelassem seus cantos primos; seus atos maduros.

Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

IDA & VOLTA

(Painting by Peter Paul Rubens)


Do Inferno, sempre volto com algo:
uma, sete, des-lembranças perdidas;
escoriações em corpos e almas.

Do Inferno, sempre volto com algo:
aves ávidas de sangue, árvores torcidas;
um alvoroço infinito de estrelas mortas.

Do Inferno, sempre volto com algo:
fauna e flora de um tempo sem história;
aquela avalanche de palavras surdas.

Do Inferno, sempre volto com algo:
um infindo desespero-agonia desmedida;
aquele sentir de nada mais querer ser.

Do Inferno, sempre volto com algo:
luxúria antevista em negro veludo infame;
aquele de um carnaval de vísceras ardidas.

Do Inferno, sempre volto com algo:
olhos cheios da atávica angústia de outras vidas;
daquelas aflitas de acaso e de ocaso plasmadas.

Do Inferno, sempre volto com algo:
mãos atadas a cravos vermelhos insones;
aquelas razões plenas de medo e flores vis.

Do Inferno, sempre volto com algo:
coração apinhado de paisagens nada sutis;
aquele oásis de palmas e cisternas secas.

Do Inferno, sempre volto com algo:
os pés continuam tortos e o corpo anoitece;
naquele esvair-se que o quê resta da vida tece.

Quando volto, nem sempre é a alegria
que me aguarda ou abraça!
Trago sempre visões enredadas à saudade:
àquela, mesclada à certeza de onde pertenço.

Jairo De Britto,
em 'Dunas de Marfim'

SUPOSIÇÕES

(Painting by John William Godward)

I

Suponha que não sei
como a conheço.
Talvez assim
meus olhos amanheçam.

II

Suponha que não sei
do lado avesso.
Talvez assim
minhas mãos o reconheçam.

III

Suponha que não sei
o exato endereço.
Talvez assim
meus ouvidos o traduzam.

IV

Suponha que não sei
o claro caminho.
Talvez assim
minhas pernas me conduzam.

V

Suponha que não sei
do bravo carinho.
Talvez assim
minha boca o descubra em canto.

VI

Suponha que não sei
quando ou como atravessar o rio.
Talvez assim
aprenda a nadar enquanto.

VII

Suponha que nada sei
do amor, viver ou ser.
Talvez assim
meus pés me levem até você.

Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

GOSTO DA LÍNGUA

(Painting by Edgar Degas)


Aquilo que ignoro,
alardeio.
Para mais poder
aprender.

Aquilo que ignoro,
alardeio.
Para melhor poder
apreender.

Aquilo que ignoro,
alardeio.
Para mais poder
saber.

Aquilo que ignoro,
escancaro.
Para, na ponta da língua,
avaro sabor todo sentir.


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

NADA A DECLARAR

(Painting by Charles Chaplin, French Academic Painter, 1825-1891)


Pronto – você, a ler sem temor
sobre o mais amargo (sobre)Viver,
ou na juventude quer refugiar-se
para não tanto sobre a vida saber?

- Claro que sim! Há tanto a ser
descoberto, mastigado, distraído.
Porções infinitas a vislumbrar;
posições horizontais a desfrutar.

(A quem interessa desventuras ler?)

Prefere – você, albergar-se naquilo
que a idade esconsa lhe oferece, dá
e ilude, com miragens e promessas
solertes, em mítico fugaz calendário?

- Claro que sim! Há tanto a ser
venerado, traído, encoberto, revisto
(talvez até esquecido); ardis inéditos:
hidras num mar de segredos malditos.

(A quem interessa tais crimes saber?)

Assim, todo o mau, inaudito, reafirma
aquilo que nenhum poeta precisa mais
repetir: nada de novo há sobre a terra.

Tudo – um Mar de Sargaços infames;
o pântano das mais sórdidas verdades,
jaz, impune, sob a terra dos homens!


Jairo De Britto, em “Dunas de Marfim”

segunda-feira, 5 de março de 2012

GESTOS

(Tela de Pablo Picasso)

O gesto correto
avista mais longe,
aprofunda emoções.

O gesto correto
avisa o que tange
alarde sobre multidões.

O gesto correto
arrisca e referenda
oferta dos corações.

O gesto correto
aplaude o que lança
música sobre estações.

O gesto correto,
carrega os amantes
para farra das emoções.


Jairo De Britto, em “Dunas de Marfim”

PÉ ANTE PÉ

(Tela de Tarsila do Amaral)


Os pés do poeta detêm
o limite exato
de cada passo.

E o Tempo repassa
as dores com juros,
Ciência e Arte.

Os pés do poeta retêm
a possibilidade
de cada pegada.

E o vento devasta
as cores com louros,
insônia e Arte.

Os pés do poeta encantam
apenas os médicos,
senhores de bisturis e suturas.

(Assim ele transporta nua
sua terrível verdade crua)

E o Tempo revela-esconde
o escasso prazer que permeia
um andar quase impossível.



Jairo de Britto, em "Dunas de Marfim"

domingo, 4 de março de 2012

RESSONÂNCIA

(Painting by Irene Sheri)

Fico a ouvir cada som,
infindo ou fundo,
que me acata ou alcança.

Desconfio, mais e mais,
de cada um. Sem travas,
transam sem fim...


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

NO PRINCIPIO, O VERBO

(Painting by Gustav Klimt)

I

Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
devagar, a palavra
... Que flui, como lava,
do seu aflito ou alegre coração.

II

Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
devagar, a palavra
Que arde e ilumina seu passo
ou ato de maior devoção.

III

Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
devagar, a palavra
Que do espírito espanta
ou alivia sua dor ou fantasia.

IV

Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
devagar, a palavra
Que saúda a criança abraçada
ao verbo, na via expressa.

V

Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
devagar, a palavra
A serviço do melhor ouvir;
mais aprender ou sorrir.

VI

Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
devagar, a palavra
Seu mais caro e casto aludir;
a prima razão de tanto advir.

VII

Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
paciente, seu transverso pensar;
com quem olvida o paladar.


Jairo De Britto,
de 'Dunas de Marfim'

SIM, EU TENTO


Sim, eu quis escrever
um poema alegre.
...
Sim, eu quis antever
um poema alegre.

Sim, eu quis até viver
um poema alegre.

Mas, a vida me impôs
uma tristeza imensa.

A vida me expôs
uma franqueza intensa.

Então, não havia escolha:
como a tristeza no bolso,
esmago a ausência insana.

Mas eu quis, sim, escrever
um poema alegre.

Apenas um, porque é preciso:
enquanto ainda sobrevivo.


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

TAL VEZ, O QUE BASTE SABER

(Painting by Laurie Maitland)


I
Não que eu saiba tanto assim,
ou que menos me importe saber:
Há quantos, exatos incríveis anos,
não tomo um copo de cólera?

II
Não que me caiba aventar aqui,
quão mal me comporte ou sobreviva ali.
Ou arguir: Qual a veríssima idade
das algas, estrelas, pedras - da Luz?

Vez que tantos diferem de mim,
em tanta alegria ou tão pouca sorte,
qual a estival infame verdade do Tempo?

III
Sei, talvez suficiente, da noite, das luas,
dos rios e vaidades; do distraído
conviver com a morte – severa amante,
pão nosso primo de cada dia.

Conheço suas mais íntimas, venais,
profundas entranhas; becos, vielas e ruas
E elas, todas, muito mais sabem de mim!

IV
Sei, da madrugada, o estuário das manhas
- malditas e surdas; a densa voz de cada cidade:
A farsa inteira – crua, da servil tempestade
com que profana e abafa a viva manhã!

V
Do dia, mares, amor e sol, já soube
- e quis - mais.
Hoje, bem pouco sei. Mas o que sei me basta.

É este parco, velho, provável falso saber
que alimenta meu viver.
(Amanhã será outra noite!)

Jairo De Britto, em
"Dunas de Marfim"

FILHO PRÓDIGO




I

Ele me olha
com a expectativa do mundo.
Sonda o que sei,
pensa que eu sei.

II

Ele me acompanha
com os olhos da vida.
Mira o que dei,
julga o que eu sei.

III

Ele me abraça
com os anos da infância.
Acha que sou rei,
acredita que eu voltei.

IV

Ele me beija
com os lábios da inocência.
Escolhe as palavras,
multiplica suas vidas.

V

Ele me descobre
no ocaso da existência.
Confere o que sei:
já sabe que não sou rei.


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

sábado, 3 de março de 2012

SEGUNDA OPÇÃO

(Painting by Steve Thoms)

Domingos são dias iguais
e tão diferentes,
que não merecem
a tensão da gente.

Domingos são dias iguais
e tão distantes,
que não merecem
a aflição do crente.

Domingos são dias iguais
e tão dolentes,
que não merecem
a curtição da gente.

Melhor roubar e gozar
o cio da segunda-feira.


Jairo De Britto,
em “Dunas de Marfim”.

CLARAS CRUZADAS

(Painting by Irene Sheri)

Alva - clara,
a palavra das horas
lavra o tempo vivido.

Alva - clara,
a palavra triste
lava os olhos do esquecido.

Alva - clara,
a palavra insiste:
larva sob o vento transido.

Alva - clara,
a palavra marota
capina savana enluarada.

Alva- clara,
a palavra afoita
cavalga amante ensandecida.

Alva - clara,
a palavra servil
escava a alma perdida.

Alva - clara,
a palavra ardente
trava o sumário da vida.


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

ALVA PAISAGEM

(Painting by Irene Sheri)


Sim, na Espanha dos teus olhos
Debrucei meus lábios cansados:
Sol e sede me fizeram avesso,
Lento ao reconhecer o alimento.

Sim, na França da tua boina inclinada
Descobri outra vida, outros hábitos:
Lua e mar me conferem o desvelo,
Estranhos rios do país que desejo.

Sim, no amanhecer do teu corpo
Apreendi inteira farmácia do amor:
Ervas em brava salmoura, alguidares
de prazer e pavor; ternura e outra cor.

Sim, na arena dos teus atos mais simples,
Avistei caravelas; na algazarra, a calmaria:
Sargaços rompidos, novo olhar sobre a dor
- perfume. Lá fora, os fantasmas da maresia.

Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

ELA, SOB ÁRDEGO E CARO SUPLÍCIO

(Painting Fabian Perez)

Vem, atrela, alavanca e mais ordena.
Encanta, sua, assanha, sobrenada.

Solta o verbo; profere a sagrada
E profana ordenha. Nada quero à toa.

Diz para, como quer, e a que veio:
Com a Voz que me alimenta e creio.

Sobe, monta, morde e crava alvos
Dentes de marfim sobre cada seio.

Escava, finca, amolda, avilta meu Ser.
Dispa-me; grita como quer e devo ceder.

Na ponta e pente da Língua, mata:
A sede, com força e flauta de seda.

Ata-me em visgo e sal ao céu em cio:
Resgata da morte aquele infinito rio.

Jairo De Britto,
em “Dunas de Marfim”

VERDADE DE BRINQUEDO

(Painting by Jose Navarro llorens)

A minha verdade
é o Atlântico Amadeus Oceano:
uma saudade tão simples
que não alcanço ou espanto.

A minha verdade
é Flora pura, verbo Purim:
inteira Jazz; Moura
Paulo, Leonardo - princípio e fim.

A minha verdade
é feita de prima Vera: uma Itália
nortista, único Moai em Santiago;
esmeraldas na Serra da Mantiqueira.

A minha verdade
é tão infame quanto Rimbaud:
um espantalho, um alaúde,
“O Novo Arrabalde”: Vitória desnuda.

A minha verdade
é cigana como meus olhos e sonhos,
vã como Veneza; adora a vida em Milão:
é portuguesa como António, o Boto.

A minha verdade
é profana, sacra, rara, sacana:
é Adriana e Frida; passa por Bocage
e Camões, mas deságua seus mitos
na boca saúva da Cobra Norato.

A minha verdade
é longa e Londres, um sítio da City.
É vasta - mais que perfeita escuridão:
dela nada conheço; nela me refaço e fortaleço.

A minha verdade
foi parida em noite de Lua Cheia.
Tão urbana como minha vida em viés:
seleta e diversa como nuvens grávidas.

A minha verdade
é um pouco Dali, outro tanto daqui.
Chega de mansinho como um carinho
afoito e fortuito: um verso de areia.

A minha verdade
é benta, nada andarilha, nada Anchieta:
é como ruas vazias; crua como Alfabeto
Celta; Sevilha - Amsterdã adormecida e nua.

A minha verdade
só existe nas línguas, em todos os lábios:
é labareda Amazônica que afoga crenças
de outras eras; ressuscita tempestades.

A minha verdade
não é cômoda, nem alvo escuso:
é certeira como Jorge, reluz como
Lótus no pântano; gira sóis como Van Gogh.

A minha verdade
namora a madrugada; despeja letras
sobre folhas virgens: fatia pão e Pound,
dispensa Salomão - saúda Sandburg!

A minha verdade
é tão incerta como humanos dentes de marfim;
tão pretensa que uma criança pode imitá-la.
Mas é a minha, nem boa nem má:
apenas brinquedo, pura ilusão.


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

CONSTRUÇÃO

(Cena do Filme 'Your Highness', Natalie Portman)

Começo a juntar,
em claro mosaico,
a fome e a força
flecha e arco.

Pareço fundar,
em cabo laico,
a dor e a cor
estrela e dardo.

Estudo o lugar,
um fácil alvo,
a forma e o verde
escala e verbo.


Jairo De Britto, em “Dunas de Marfim”

EL CONDOR PASA


Com dó maior, assisto
partir o grande pássaro.

Com alegria, vislumbro
um seu novo horizonte.
Com a enorme pena
dos humanos que não voam.

Com a imensa pena
dos que não o vêem,
escuto o vento roçar suas asas.

Com afoita clemência,
abrigo e misturo nossos olhos.

Com a enorme argúcia
dos que tanto sobrevoam;

Com a aurora e astúcia
dos que tanto despertam;
observo seu lento suave
planar sobre o vale.

Com dores e letras, desejo
partir soberano com o pássaro.

Com estranha mansidão,
grito e informo minhas penas:

Com a impávida altivez
e ousadia dos que suicidam

Com a tácita incerta alforria
dos que nos versos ressuscitam!

Ao fim e ao cabo de obscuras
esperanças, aprecio quando
El Condor Pasa e passeia
sua altivez - liberta e sagrada -
sobre os Andes Latinos!


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

sexta-feira, 2 de março de 2012

ENTRE COISAS

(Tela de Keith Mallett)

Há as coisas que miro
as que admiro
as que prefiro
e as que atiro,
desesperado e bobo, pela janela.

Há as coisas que sufoco
as que suporto
as que ensino
as que aprendo
e as que me aquecem o corpo.

Há as coisas que esqueço
as que enlouqueço
as que escrevo
e as que giram
em torno e por dentro da cidade.

E, à espreita, aquela infinidade:
Ah! As coisas que nunca imaginei.


Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"

TOQUE DE ESMERIL

Esmeralda ou prótese acrílica,
você enfuna emoções
em clara tez.

Nada respalda
o orvalho dos seus olhos,
além da fúria sazonal
que alimenta o instante.

Esmeralda ou prótese acrílica,
você encerra corações
avessos em transe.

Nada indica
o atalho aos seus lábios,
aquém da estival alegria
que representa o amante.


Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"

IMPASSE URBANO

O semáforo
irrita
a rua
que ri
de si
dó maior.


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
(Formatado pela amiga Amália Catarina)

FARRA DE CORES


A Primavera se avizinha:
raízes e letras
exigem sua hora e tempo.

Caminho pelo jardim.

Espinhos do alfabeto,
Azaléias da alma insone.

Caminho entre seixos.

Busco o perfeito aquário,
Onze-horas e algas
orientam os peixes.

Pedras, nuvens e letras noir.
Tudo anuncia a Primavera:
discreta, Almíscar, esperta.

Em torno dos homens
entorna suas flores, perfume,
brisa, maresia e malícia.

Palavras azuis sobre o mar.
Sobre o marfim, música,
frases, orquídeas raras.

II

A Primavera caminha anônima
como homens e mulheres na rua,
afoita com tantas luas.

A Primavera espraia
graça entre samambaias,
escala buganvílias, assanha roseiras.

Espio, solene, sapos e flores;
espreito folhagens, livros antigos.

Refaço e traço veredas,
espelho versos contra o sol.

Entre seios de nuas mulheres,
abrigo meus olhos úmidos:

Vermelhos antúrios
em fins de madrugada.

Calculo frações primas e veras;
pernas, seios, trepadeiras e lírios.

Estrelas avessas da manhã,
casuarinas de sonhos.


III

A Primavera se avizinha:
enlouquece românticos e céticos,
com sua farra de cores;
seu derrame de felicidade.


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

TOADA


As folhas se amontoam
no canto do muro.

Os anos se amontoam
no canto da vida.

Vida afora, amontôo
desafinações
em grandes toadas.

Só...

Quero uma toalha úmida,
como telhas depois da chuva.
E fria, como bonecos de neve.

Para, às quedas,
cobrir meu desespero
inteiro e nu.


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

OLHOS D’ESPANHA


Mergulho em seus olhos
um amor de inteira argúcia:
medo, desespero, arte-ofícios.

Mergulho em seus olhos
um mar de nomes inéditos:
cometas, algas, êxtase, suicídios.

Mergulho em seus olhos
uma língua afiada em riste:
verbos, substantivos, pronomes;
oceanos de silêncio e silício.

Mergulho em seus olhos
arcanjos de nuvens e neve:
retalhos, letras, sussurros;
restos avessos da inútil paixão.

Submerso em seus olhos,
desnudo e descubro seu corpo:
então, sua beleza me resgata
do pântano das sobras e sombras.


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

COM PASSOS DE SONHOS


(Primeiro Rascunho)

I

Sobrevoando a floresta,
que acolhe e alimenta seus sonhos,
vislumbro curso e recursos do rio que,
de janeiro às águas de março,
acalentam os animais que povoam,
da minha menina esperta,
toda a fronte e fortes ombros.

II

Sobrepesando a festa,
descubro cobras e ursos,
paturis e gansos, garças e peixes
que habitam o lago à espreita
dos humores de águias e tigres:
que invadem o aquário secreto
da minha mulher, amante, sol, lua,
prima e vera cigana menina.

III

Tanto quanto tão pouco sei,
ela caminha sobre nuvens travessas.
Sobrenado e circundo sua íris, sua boca;
afago seus olhos e seios salgados.

IV

Insone e alerta, eu sei daquilo que poupa
e alimenta seus sonhos!
Então, devoro suas dálias,
dunas, fauna, cartas e cores avessas...

(Portanto, quando ela adormece,
eu Sou - e algo mais Sei!)

Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

NO PRINCIPIO, O VERBO

I

Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
devagar, a palavra
Que flui, como lava,
do seu aflito ou alegre coração.

II

Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
devagar, a palavra
Que arde e ilumina seu passo
ou ato de maior devoção.

III

Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
devagar, a palavra
Que do espírito espanta
ou alivia sua dor ou fantasia.

IV

Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
devagar, a palavra
Que saúda a criança abraçada
ao verbo, na via expressa.

V

Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
devagar, a palavra
A serviço do melhor ouvir;
mais aprender ou sorrir.

VI

Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
devagar, a palavra
Seu mais caro e casto aludir;
a prima razão de tanto advir.

VII

Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
paciente, seu transverso pensar;
com quem olvida o paladar.


Jairo De Britto,
de 'Dunas de Marfim'

SIM, EU TENTO


Sim, eu quis escrever
um poema alegre.
...
Sim, eu quis antever
um poema alegre.

Sim, eu quis até viver
um poema alegre.

Mas, a vida me impôs
uma tristeza imensa.

A vida me expôs
uma franqueza intensa.

Então, não havia escolha:
como a tristeza no bolso,
esmago a ausência insana.

Mas eu quis, sim, escrever
um poema alegre.

Apenas um, porque é preciso:
enquanto ainda sobrevivo.


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

quinta-feira, 1 de março de 2012

AUTO-RETRATO

(
Trago pão na bolsa,
uma lágrima no bolso.

Esqueço-me das pequenas coisas
e não consigo atender
às grandes demandas do amor.

Trago fé entre os dedos,
um pé que sorri e se arrasta.

E não recupero meu Tempo.

Os sonhos desabam do instante,
marionetes do ocaso.

(E já não sei em quê tive certeza)

Jairo De Britto
de: Dunas de Marfim